APCD - Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas

Descoberta indica potencial para tratar obesidade sem efeitos adversos

Peptídeo, que pode ser ingerido por via oral, será testado em seres humanos para permitir uso em medicamentos

Segundo a pesquisa que teve a participação do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), o peptídeo Pep19, derivado de um composto produzido no interior das células do corpo, apresenta potencial de uso como fármaco para o tratamento da obesidade. Testes com animais indicam que o peptídeo reduz peso, gorduras localizadas e melhora os índices de glicemia, colesterol e pressão arterial, sem causar depressão ou outros efeitos adversos no sistema nervoso central. O peptídeo, que pode ser ingerido por via oral, irá passar por testes em seres humanos para permitir a utilização em medicamentos. O estudo é descrito em artigo publicado no Scientific Reports da revista Nature.

Peptídeos são substâncias derivadas de proteínas que formam redes de interação dentro das células, sendo responsáveis por regular diversas funções celulares. “O Pep19 foi produzido a partir de um peptídeo encontrado no interior da célula e o estudo descobriu que ele modula a atividade do receptor de canabinoides”, afirma a pesquisadora Andrea Heimann. “A atividade desse receptor está ligada a diversas doenças e também à regulação do humor, da saciedade (relacionada com o controle de peso) e da dor. Sua inibição é a base do tratamento, por exemplo, da cirrose e da epilepsia”, diz.

Ao constatar que o receptor de canabinoides pode ser um alvo terapêutico do peptídeo, os pesquisadores propuseram seu uso para tratar a obesidade e a síndrome metabólica, além de identificar possíveis efeitos adversos. “Medicamentos para obesidade com ação similar levavam a perda de peso e também melhoravam os parâmetros cardiovasculares dos pacientes”, explica Andrea. “No entanto, o fármaco também agia no sistema nervoso central, o que provocava depressão e, em alguns casos, suicídios”.

Os experimentos com ratos e camundongos verificaram que o Pep19 promove a diminuição de peso e de gorduras localizadas. “Ele também melhorou os parâmetros metabólicos associados à síndrome metabólica, como os níveis de glicemia (açúcar no sangue), insulina, colesterol e pressão arterial. Ao mesmo tempo, constatou-se que não há ação sobre o sistema nervoso central, o que impede o aparecimento da depressão”, aponta a pesquisadora.

A pesquisa também descobriu que o Pep19 pode ser administrado ao paciente por via oral, ao contrário de substâncias similares, como a insulina, que não mantém sua atividade, por isso precisa ser injetada. “Assim, o medicamento com o Pep19 poderia ser colocado em comprimidos a serem ingeridos pelos pacientes”, esclarece Andrea. A patente do peptídeo já está registrada nos Estados Unidos e a pesquisadora calcula que os testes clínicos (em seres humanos) devem ter início em seis meses, se houver investimento. “Conforme os resultados dos testes estima-se que o medicamento possa estar no mercado dentro de cinco anos”.

O funcionamento do peptídeo, seu mecanismo de interação com o receptor e seus efeitos foram estudados no Laboratório de Farmacologia de Peptídeos Intracelulares do ICB. “Há 15 anos o grupo de pesquisa vem estudando peptídeos, que têm importância biológica, fisiológica e potencialidade para utilização em medicamentos”, afirma o professor Emer Ferro, coordenador do laboratório. “O trabalho analisou peptídeos intracelulares que fazem parte da biblioteca existente no laboratório, além de outros pertencentes ao acervo da empresa”.

Fonte e foto: Jornal da USP

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